sábado, 26 de dezembro de 2009

Deficientes auditivos vencem dificuldades e concluem curso de inglês

Apesar da descrença de muitos, dois alunos receberam o diploma.
Ambos se preparam para superar novos desafios
Finalizar o curso de inglês quando 2009 está terminando tem um gosto especial para Rafael Dias Rodrigues, 22 anos, e Elizabete Ferreira de Oliveira, 28. Deficientes auditivos, os dois concluíram o curso de seis anos no Centro Interescolar de Línguas de Brasília (CIL) depois de vários obstáculos. Durante esee tempo, eles contaram com o sistema de inclusão da escola que oferece intérpretes de Libras/português para acompanhar as aulas. Mas neste último semestre, eles tiveram aula com o novo professor Lucas Floriano de Oliveira, 26 anos, também deficiente auditivo, que entende as limitações e foca a educação na condição dos alunos. Ontem, foi realizada a comemoração de formatura dos dois alunos.

Elizabete e Rafael começaram o curso de inglês quando estudavam no Centro de Ensino Médio Elefante Branco, localizado bem ao lado do centro de línguas. Todos os alunos da escola devem cumprir a disciplina de língua estrangeira moderna no CIL. Mas, ao contrário da maioria dos estudantes com deficiência auditiva, os dois seguiram o curso depois da formatura do ensino médio. E, com muita dedicação e força de vontade, eles venceram mais uma etapa da vida. “Para o surdo, aprender o português já é um desafio. Enfrentar uma terceira língua torna o obstáculo ainda maior”, disse Giuliana Evangelista, a intérprete da linguagem de Libras no CIL. “As turmas especiais do básico e intermediário chegam a 15 alunos. Mas com o passar do tempo, as turmas diminuem. Muitos acreditam que não vão conseguir”, explicou.

Elizabete sempre pensou ao contrário. Ela correu atrás de uma oportunidade de estudar inglês: deixou escolas em Santa Maria e Gama em busca da formação. Na época em que ela cursava o ensino médio, apenas o Plano Piloto oferecia ensino diferenciado aos portadores de necessidades especiais. Ela foi criticada por muitos amigos que acreditavam não haver condições de aprendizado por um deficiente auditivo.
“Não me importei, eu não ligava para a opinião dos outros. A vida é minha e eu decidi continuar”, contou. Ela não imaginava que um dia concluiria o curso. Hoje, a realidade e parece mais um sonho. “Eu me sinto muito bem agora. O próximo passo é fazer uma faculdade de artes, mas em questão de língua, estou satisfeita com o inglês”, disse.

A auxiliar de biblioteca adquiriu a deficiência auditiva ainda quando criança devido a uma meningite mal cuidada. Sempre determinada, enfrentou todas as dificuldade que, aos poucos, cruzavam seu caminho. Durante quase toda a vida escolar, ela aprendeu as matérias por esforço próprio. Os professores não tinham conhecimento de Libras e voltavam à aula apenas para os ouvintes. Bete era obrigada a procurar reforço na parte da tarde. Em alguns semestres de cursos de inglês, a mesma coisa: “Um professor explicava de uma forma confusa. Falava demais e fazia de menos. Eu desprezava o oral e fazia só os exercícios escritos”.

Colega de classe com Elizabete, Rafael nasceu surdo. O parto, que estava marcado para as 10h do sábado, foi realizado quase um dia depois. Sem oxigenação necessária no cérebro, ele ficou sob observação em uma encubadora por 14 dias após o nascimento. Desde pequeno, ele aprendeu libras e contou com o apoio da família. “Ele não desiste nunca”, contou o pai, Dionísio Rodrigues dos Santos, 53 anos. Orgulhoso, ele conta parte dos sonhos do filho de cursar algo voltado para contabilidade ou matemática. Atualmente, Rafael trabalha no Superior Tribunal de Justiça (STJ) digitalizando processos. “Ele sempre gostou de ser independente. Faz tudo sozinho. E não quer parar de estudar. Quando pergunto se ele vai dar um tempo, ele responde que vai estudar até quando não puder mais”, disse.

Desafio para professores
As aulas de língua estrangeira para deficientes visuais são diferentes das aulas voltadas para ouvintes. Os exercícios de prática da língua com conversação e áudio são substituídos pelos exercícios escritos. Os alunos leem em inglês. O professor, por meio dos sinais, traduz as frases e ensina as regras de gramática. “O professor tem que ser trilíngue: saber bem os sinais, o português e o inglês. E não é fácil, porque muitos alunos não dominam a língua portuguesa”, disse o professor Lucas.
Durante o curso, o aluno aprende basicamente a se comunicar pela escrita. Isso porque os sinais em português são diferentes dos outros idiomas. “A língua de sinais serve como intermediária das duas línguas. Seria melhor se a pessoa aprendesse logo os sinais em inglês. Mas ainda não temos isso em Brasília”, explicou.

Lucas usa aparelho auditivo e sabe ler o lábio das pessoas durante uma conversa. Ele cursou o ensino médio no Elefante Branco e, ali, conheceu o inglês. Na época em que estudava, não contava com as aulas em turmas especiais, criadas em 2002. Por isso, ele assistia as aulas em turmas especiais, com dezenas de ouvintes.

Determinado a aprender a língua estrangeira para trabalhar como tradutor de texto, Lucas sentava na primeira fileira de cadeiras e pedia para o professor falar devagar. “Sei falar inglês direitinho. Aprendi junto com todo mundo”, contou. Ao se formar na escola, entrou na faculdade para o curso de letras/português e até hoje assiste português/libras na Universidade de Brasília (UnB). No início deste ano, ele passou no concurso da Fundação Educacional e hoje dá aula para sete turmas no CIL. “Foi um desafio, mas gosto muito”. Ele sonha longe: quer ser professor universitário.

Cerca de 7.500 alunos estão no CIL hoje estudando espanhol, inglês e francês. Eles são alunos de escolas públicas do Distrito Federal, que cumprem parte do currículo escolar na escola de línguas. O atendimento aos alunos com necessidades educacionais especiais começou em 2002. De 2002 a 2005, foram oferecidos na escola cursos anuais de Língua Brasileira de Sinais — Libras. A professora da turma especial do turno matutino, por exemplo, está aprendendo a se comunicar por libras. Enquanto isso, ela conta com a ajuda de uma intérprete para dar a aula. Agora, o CIL pretende revitalizar a Sala de Recursos para incluir o aluno portador de outros tipos de necessidades especiais.
Para saber mais

Língua de sinais difere em cada país
Libras significa Língua Brasileira de Sinais. A origem da comunicação por meio de sinais tem origem na Língua de Sinais Francesa. As línguas de linais não são universais. Cada país possui a sua própria língua de sinais, que sofre as influências da cultura nacional. Como qualquer outra língua, ela também possui expressões que diferem de região para região (os regionalismos), o que a legitima ainda mais como língua.

O que diz a lei

O Artigo 8, Capítulo 2 da Lei Federal nº. 10.436, que trata da difusão da Libras na educação, determina que:
As instituições de ensino da educação básica e superior, públicas e privadas, deverão garantir às pessoas surdas acessibilidade à comunicação nos processos seletivos, nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas e modalidades de educação.§ 1º Para garantir a acessibilidade prevista, as instituições de ensino deverão:– capacitar os professores para o ensino e uso da Libras e para o ensino da Língua Portuguesa para surdos;– prover as escolas com o profissional Tradutor e Intérprete de Libras e Língua Portuguesa, como requisito de acessibilidade à comunicação e à educação de alunos surdos em todas as atividades didático-pedagógicas;– viabilizar o atendimento educacional especializado para alunos surdos.

2 comentários:

Adoniran Melo disse...

Nossa seu blog é muito bom parabéns

Pedagogia Surda disse...

Adoniran, obrigada..Ana Carolina

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